Tuesday, July 18, 2006

Tira-Dentes




Duas profissões me fazem beber desalmadamente: cangalheiros e dentistas. Os primeiros por serem a elite dos cobradores de fraque, os segundos por serem descendentes directos dos barbeiros de Sevilha. Um belíssimo Ancient Age, conserva-me até à velhice e serve perfeitamente para gargarejar.

Arrastado à força, bebidas duas litradas, convenceram-me a ir ao dentista. Não me doiam os caninos, não me sangravam as gengivas, nem me apoquentavam as cáries.

É bem ir ao dentista, como é bem ir ao ginásio. Mens sana in corpores sanus e coisa e tal, dentes branquinhos para atravessar autoestradas em noites de lua nova. O que é certo é que lá fui sentar-me na cadeirinha, a olhar para o tecto de boca aberta.

Começámos com o pé errado, eu e o dentista. Desconhecedor das regras básicas de vendas, em vez de me elogiar o faqueiro, atirou com desdém mascarado, um 'isto tá mau pá'. O mesmo me diz o mecânico cada vez que lá levo o chasso. E tal como no mecânico, arrepiou-se-me o bolso da carteira.

No mecânico tenho a vantagem de lá deixar o veículo descansado a ser afagado nas bielas, a ser esventrado na cabeça do motor. Não me doi. Pelo menos até ter que pagar. No dentista a carnificina é ao vivo, tem sons de brocas e alicates, tem dores que me sobem ao cérebro.

No mecânico já há computadores ligados aos blocos dos motores, diagnósticos remotos, nomes difíceis e estrangeiros. No dentista lá nos perguntam se doi de duas em duas horas, enquanto nos esquadrinham com metais medievos, ferros da Inquisição e máquinas do demo.

Por detrás daquela máscara cirúrgica jaz um talhante de carnes verdes, um amputador das guerras napoleónicas, um Hannibal Lecter da boca.

No fim, antes do 'pagantes', sobem-nos a cadeirinha e ditam: cuspa! Onde já se viu um médico, que depois de uma operação ao apêndice, o deixe lá para a gente o evacuar, naturalmente? Cuspa? Oitenta euros e ainda tenho que fazer o trabalho de remoção de escombros? Cuspa vócelência, ómessa!

Monday, June 26, 2006

Morreu o Fair Play




Ante-Scriptum:
Amo o Mundial. Permite-me começar a beber uns copázios valentes de bourbon com gelo à uma da tarde. Sem que ninguém reclame. E os amigos ainda trazem os amendoíns. Uma delícia. Já dei cabo da primeira garrafa de Old #12, um bourbon com o número do torcedor e com sabor a chuteiras.

Fiz nova sabática tiralinhesca. Por causa do Mundial, sim. Primeiro porque entre o Professor Marcelo, o Paulo Catarro e o Nuno Luz, já tudo foi dito sobre o Mundial. Depois porque se o Nuno Luz comenta o Mundial, mais ninguém se devia interessar por um assunto de tão baixa estirpe. Por fim, porque nestes dias não existe vida supra ou infra mundial. Até o Mari Alkatiri adiou a demissão para depois do Portugal-Holanda.

Mas sou forçado a quebrar a abstinência depois do jogo de ontem. Depois da Batalha Campal, como apareceu nas gordas desportivas e generalistas. Tentei conter-me mas não consigo. É mais forte que eu e pelos vistos, que três quartilhos de bourbon.

Como dizia o Orwell, o futebol é a continuação da guerra por outros meios e nós ontem vingámos uma mal contada história de guerrilha marítima com os Holandeses. Esse povo boçal que um dia cruzou uma soca com um moínho típico, fez disso uma nau e toca de cobiçar o nosso império. Em futebolês, demos pau, forte e grosso. De marmeleiro que tem uns nós bons pra moer mioleiras.

E por essa razão recebemos uns cartonitos amarelos bastantes e vermelhos, os suficientes. Sem perder a cabeça e adir o Sr. Árbitro às contas da sarrafada, como em campanhas diferentes e orientais. Feitas as contas, mandámos uns tipos - que, se a física de fluídos funcionasse como Deus Nosso Senhor mandou, viveriam com água do mar até ao pescoço - de socas de volta para a reparação de diques e plantação de tulipas.

Jogámos feio mas não jogámos baixo. A isso estão licenciados em exclusividade os Holandeses, habituados a viver a altitudes negativas. Tivemos o cavalheirismo da canelada, da rasteira e do empurrão, tudo à frente do Sr. Árbitro. E evitámos a cotovelada manhosa, a entrada pitonada e o calcanço quando o Senhor do Apito e os seus Hobbits não estavam a olhar.

Ou seja, jogámos o jogo na sua quintessencia. Nas regras do recreio da escola (esfolar, matar, mas sem tirar olhos), e não nas regras de Maria Alzira que a FIFA impõe. Perdeu-se no fair play, ganhou-se na honra do bom malandro. Não vem daí mal ao mundo, muito menos ao futebol.

Morreu então o Fair Play. Não em campo. Nem naquela suprema sacanice de não nos devolverem a bola depois da interrupção do jogo. O Deco correu 300 metros, ceifou o troglodita de laranja e salvou a honra ao convento de Van Basten com um tackle maravilhoso e com pelos no peito. Cartão amarelo, dores nas canelas, amigos como dantes.

O Fair Play morreu na secretaria, quando hoje a Federação Inglesa pediu um castigo para o Figo. Pelo encosto de testa que a menina de laranja teatralizou como uma cabeçada horrenda.

Morreu às mãos de quem o inventou, os ingleses. Morreu, não porque seria de suprema justiça castigar o Figo - em nome da ombridade e verdade desportiva - mas porque dava jeito aos senhores jogar com uma equipa portuguesa diminuída. Morreu o Fair Play em nome do Fair Play.

A esses súbditos de Sua Majestade, lembro que na secretaria enquinaram a meia-final de 66, ao alterarem o local do Inglaterra-Portugal para onde mais lhes convinha. Assim como quem não quer, à última da hora.

A esses ilhéus filhos de incestos sucessivos gostava que a selecção do Felipão vingasse as lágrimas do Eusébio e que, vestidos de t-shirts do Continente, dessem uma cabazada à antiga aos pupilos do Sven. E tal não podendo, que ganhem por um mas distribuam canelada sem parcimónia e charuto com fartura, sentido de justiça e pózinhos de fair play.

Para esses senhores, que fizeram chorar o Eusébio, fazia o Ricardo tirar as luvas e na sua vozinha de ultra-suprano, distribuír cachaçadas, carolos, calduços, pirulitos e afins.

A esses senhores, com Fair Play, dedico um UP YOURS de todos nós, que temos uns trocos a haver de 66, do Mapa Côr-de-Rosa, de nos terem levado o Mourinho.

Para esses senhores, cantemos o 'Marchar, marchar' do hino que lhes foi, nesses idos tempos, dedicado. Ide todos tomar chá, que é uma coisa tão british, tão british, que teve que ser uma portuguesa a ensinar-vos como se fazia.

Ler com Queen, We Are The Champions

Friday, May 26, 2006

Limpo, limpando





Ante-Sriptum:
Um novíssimo Old Creek é o bourbon que me entretém durante os intervalo publicitários. Também o uso como complemento vitamínico para o canário, mas desconfio que o sacana gosta mesmo é do álcool.

Falar é o acto mais idiota de toda a paleta de acções humanas. Por isso existe o temor do discurso público. Errar é humano, porque falar é errar. Os grandes oradores são-o porque falando não erram ou erram pouco, mas são um punhado os oradores que tenham criado algo através da oratória.

O ser humano produz brilhatemente na relação cérebro-mão e não na relação cérebro-boca. O problema existe quando vivem à face da terra um sem-númedo de bestas semi-alfabetizadas que ainda não perceberam - e nunca perceberão - que erram porque a sua relação cérebro-mão não existe. O cérebro foi, para eles, posto fora de circuíto e a substituído pela desprovidíssima de inteligência, relação boca-mão.

Serve este intróito para tentar fazer sentido das enormidades que se vêm escritas por aí todos os dias. Não estou a falar dos cronistas e comentadores da nossa praça. A muitos desses a relação previligiada é entre a mão e as tripas. Estou a falar dos 'há pipis' e 'há caracóis'. Dos 'feche sempre a porta, por favor' deste mundo. Estes pequenos recadinhos em pequenos bocados de papel que se encontam em tascas, casas de banho,lugares públicos.

Um familiar próximo destes lembretes é o flyer ou o autocolante publicitário. Um qualquer carola oferecendo um qualquer préstimo, vai a uma tipografia e de esferográfica roída na ponta - toma lá - são 1000 exemplares desta prosa. E toma lá que eu quero isto com esta organização e nestas cores.

Assim conhecemos as qualidades de videntes, mulheres-a-dias, canalizadores e outros. Encontrei um autocolante destes num semáforo. O canhestro senhor seu dono era Limpa-Chaminés. Não era canhestro por causa da profição fuliginosa. Canhestro será porque num rectângulo de uns poucos centímetros conseguiu demonstrar a falta de comunicação entre os seus dois hemisférios.

Dizia o adesivo publicitário: LIMPO CHAMINÉS, linha seguinte, corpo negrito 93 334 456 (imaginário), linha seguinte SEM SUJAR.

Ora o senhor propõe-se a limpar sem sujar! Brilhante. E faz disso profissão. Limpar limpando! É claro que um remédio pode curar sem arder, um assassino profissional anunciar que mata sem dor. Mas nunca lembraria a ninguém, anunciando-se como limpa-qualquer-coisa, fazendo ressaltar que o faz, não sujando.

Limpo sem sujar tem o seu equivalente médico em 'curo sem matar', ou 'faço o diagnóstico sem necessidade de autópsia'. Limpo sem sujar tem o seu equivalente mecânico em 'conserto sem avariar'; o seu equivalente na aviação em 'levanto vôo sem cair'; o seu equivalente na construção civil em 'construo sem que caia'.

O pequeno adesivo promete tão só e apenas que, ligando para o dito senhor, ele nos fará não só o trabalho para que está habilitado, como o trabalho que lhe dá nome: LIMPAR! E sabem que mais? Falo-á sem sujar.

Ler com Snakes and Ladders, Men at Work
Counter Centilitros bebidos